MILÃO
Últimos dias de pedal pela frente. Até poderíamos seguir numa
jornada só até Milão, mas não seria prudente chegar à cidade no final da tarde,
atravessá-la inteirinha, para do outro lado, no bairro de San Siro, encontrar o
Albergue. Vale lembrar que pensamos ter mais 150 km a percorrer. Preferimos
sair o mais cedo possível, para depois pernoitar em qualquer localidade próxima
do destino final. Foi o que fizemos; cedo iniciamos a pedalada, continuando por
estradas secundárias totalmente planas, com tempo bom e vento a favor. O melhor
deste trajeto era o visual: primeiro pelo lago de Garda, não muito distante de
Verona, e outro lugar importante de veraneio dos italianos; agora, em baixa
temporada, pouco movimento, mas sua beleza continua lá. Na cidade de Pescheira,
à beira do lago, existe uma ponte com arcos, antiga, muito bonita; outro eram
os Alpes, sempre a nossa direita, a todo o tempo era possível vislumbrá-lo. Em
2007 cruzamos os Alpes naquela região, e deixou saudades.
Interessante foi atravessar dois compridos, e intermináveis
para nós, túneis durante o trajeto. O primeiro deveria ter quase 3 km, e o
outro, vimos uma placa antes, indicando que tinha 1,25 km. Diferente, mas muito
tenso. Pedalar na estrada, sem acostamento, já é complicado, imagina fazer isso
dentro de um túnel, com um barulho infernal, pouca iluminação e algumas poças
de água, com um barro que lembrou um passeio de ciclo turismo na região da
serra de Itaiópolis, alto vale do Itajaí, em Santa Catarina. Pela primeira vez
as bicicletas viram água; tadinhas.
Como é difícil ficar tranquilo o tempo todo, tinha que
aparecer uma situação de suspense. Depois de pedalar por 70 km, em estrada
estadual, de repente nos vimos em um entroncamento, com viadutos e estradas
para um lado e para o outro; seguindo a orientação das placas fomos em frente.
Não andamos muito e começaram a buzinar para nós, carros e caminhões, fazendo
gestos com a mão indicando que não era permitida bicicleta naquela pista.
Tentamos imaginar onde erramos, onde deveríamos ter dobrado à esquerda ou
direita para não entrar naquela situação. Passamos por um viaduto, no final do
cruzamento, e, numa entrada lateral, percebemos um carro de polícia (olhem eles
aí de novo!). -Ai, ai, sabe de uma coisa? Vamos até eles desta vez; não vamos
esperar ser abordado. Disse eu à Carmo, e já seguindo desmontado, até os
policiais, que no momento faziam uma blitz.
De pronto avisamos que sabíamos que não deveríamos percorrer
aquela estrada, e pedimos informações para saber como sair dela. Até que os
policiais foram gentis, mas estavam inconformados de estarmos lá. Conversaram
entre eles, mas como falavam em italiano, um pouco compreensível para nós,
entendemos que deveríamos “puxar o verde”, ou seja, sair pelo mato mesmo.
Percebemos também, um certo constrangimento deles em fazer com que fôssemos
pelo mato, tanto é que um deles apontava a linha do trem, como se pensasse: “-
Por onde eles vão?” Depois de confabularem, nos apontaram uma estrada mais para
frente, talvez uns 2 km, à direita, onde até percebíamos a movimentação de
carros. Disseram para pegar aquela estrada. Oba! Vamos poder ir pela estrada
pelo menos esses 2 km, pensamos. Montamos nas bicicletas e nem demos a primeira
pedalada. Apitaram e gritaram: – Ei, ei, pelo mato, pelo mato. Fazendo gesto
com a mão. Então tá.
Tinha um milharal já colhido, e seguimos pelo carreiro da
plantação, fazendo zig zag, e, felizmente, não precisamos atravessar a linha do
trem, porque depois de um tempo empurrando as bicicletas, vimos um pequeno
carreiro de trator e fomos quase paralelos à estrada, mas à distância, até
encontrar um senhor que estava no meio do mato, acredito que limpando alguma
coisa na terra. Tinha lama no caminho, e, pela primeira vez no passeio, as
bicicletas viram lama; tadinhas de novo. Ele nos disse para seguirmos pelo
carreiro, pegar uma pequena estrada, virar para lá, virar para cá, segue ali e
acolá (sinistro e destro e tal). Não é que conseguimos pegar o caminho de
Brescia, uma bela cidade praticamente no meio do caminho até Milão.
Chegando a Brescia, aproveitamos para fazer um bike tour e
conhecer um pouco de sua historia, e os principais locais preservados da
antiguidade, inclusive um prédio com colunas, que chamam de Capitólio também, e
que possui escavações recentes e sinais de reformas.
O tempo, com isso, passou rápido, e atrasou um pouco nossas
expectativas. Aproveitamos o horário de almoço e fomos comer alguma coisa. No
final da tarde, ainda pedalando por estradas secundárias (SS 11), passamos por Ospitaletto,
Rovato, Cocagglio e Chiari. Percebemos que era hora de parar, e quando chegamos
ao centro da pequena vila de Chiari, depois de 100 km rodados, descobrimos que
não encontraríamos local para o pernoite; os hotéis que havia estavam fechados.
Perguntamos para algumas pessoas e a única opção que nos deram, pelas
redondezas, seria um Hotel (Touring), mas teríamos que voltar pelo menos 5 km
até Cocagglio. Fizemos isso.
Chegando ao Hotel percebemos um problema maior: 4 estrelas.
“Tamo ferrado!”. A Carmo mais uma vez foi “espontaneamente” até o balcão de
atendimento, “linda, maravilhosa e cheirosa”, depois de 119 km de pedal. Voltou
depois com “boas” notícias, pois havia um “quarto econômico” para nós. Não
tivemos outra opção mesmo, e aceitamos a “pechincha”. Não tenho falado muito
sobre valores desta viagem, e é de propósito. Quando voltarmos explico melhor,
mas só para dar uma ideia, a gente fez um cálculo de quantos euros iria gastar
por dia, fazendo com que uma coisa fosse cara ou barata dentro das nossas
expectativas, sem converter para o real, senão é “sofrimento” na certa. Cada um
sabe o tamanho de seu bolso, então é preferível não citar valores em alguns
casos. Para fechar esse assunto, gastamos entre 15 e 42 euros por pessoa, por
dia, com hospedagem.
Demos um monte de risada sobre o assunto Hotel, pois o quarto
“barato” tinha de tudo. Quando o funcionário galã nos levou até o quarto, sem
carregar nada de nossos “bagulhos”, fiquei imaginando que eu teria que dar
alguma gorjeta, certo? Imaginando somente, porque na prática, disse um muito
obrigado, em italiano. Ora, se eu estava em quarto “econômico” era porque não
tinha muito dinheiro para gastar...
Finalmente chegou o último dia da cicloaventura. Sábado, dia
20 de outubro de 2012. Foram tranqüilos 80 Km (acima dos 150 km previstos,
somando os dois dias). Dia bonito, sem muito frio, perfeito para pedalar.
Passamos por Chiari de novo; depois Antegnate e Mozzanica. Logo, ao longe,
avistamos a cúpula de uma grande igreja, e percebemos tratar-se do Santuário de
Nossa Senhora de Caravaggio, e que estava apenas 500 metros saindo à direita da
estrada. Pegamos a estradinha em sua direção. Foi um momento singelo e emocionante.
Quem me conhece sabe que não sou um cristão fervoroso, mas tinha uma atmosfera
no ar, que não sei explicar. Fiquei cuidando das bicicletas, para a Carmo
entrar e rezar um pouco. Resolvi ligar a câmera e filmar esse momento, mas não
aguentei narrar muito tempo e as lágrimas vieram. Acho que era uma mistura de
emoções, e tinha o direito de chorar. A Carmo chegou e nos abraçamos
fraternalmente. Momento de agradecer pela felicidade de termos todas as
condições possíveis e necessárias para realizar essa viagem; da proteção que
recebemos e do carinho e apoio daqueles que ficaram no Brasil torcendo,
acompanhando e rezando por nós.
Voltando para a estrada, deixei de propósito a Carmo para
trás, deixando apenas ao olhar, e curtimos nosso momento sozinho de
introspecção. Continuei pensando em toda a jornada, na família e amigos e lá se
foram alguns quilômetros de emoção.
De lá foi um pulo até Milão. Bastou passar por Rivolta
d’Adda, Truccazano, Liscate e Novegro e lá estava ela, a bela Milão. Longos quilômetros
até chegar ao centro e, principalmente, ao Duomo. Começo da tarde e a multidão
de moradores, turistas, ambulantes, pombas e mais um monte de coisa, inclusive
um protótipo do Trem Bala italiano, estavam por lá. Comemoramos sozinhos e com
emoção esse momento. Mais de 2000 km percorridos, oito países, sete capitais;
línguas diferentes, moedas diferentes e costumes diferentes. Paisagens
variadas, de campos a montanhas, de ciclovias a estradas.
É preciso agradecer às nossas incansáveis companheiras
bicicletas. MTB Giant/26 de alumínio, robustas; conjunto Shimano Deore e pneus
1.5, que apenas receberam um pequeno “gás” aos 600 km, e não furaram nenhuma
vez. Só usei ferramenta uma vez, e foi para emprestar a um jovem ciclista, que
pediu ajuda no caminho, na região do rio Elba.
Agradecimento geral a todos que acompanharam de perto nossa
aventura e torceram pelo nosso sucesso, e, finalmente, à Maria do Carmo, que
mais uma vez aguentou firme sem reclamar os trechos pesados que passamos. Foi
muito forte, corajosa e companheira. Deixou para mim a tarefa de escrever os
relatos, e acabei usando e misturando a primeira e terceira pessoas nos textos.
Ela garante que pessoalmente contará a todos esses momentos maravilhosos que
tivemos.
Abraços a todos e até a próxima cicloaventura.
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Ponte de Arcos em Peschiera Garda |
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Lago de Garda |
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Lago de Garda |
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Tinha túnel no caminho |
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Tinha milharal e estrada de chão no caminho |
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Tinha lama no caminho |
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Entrando na cidade de Brescia |
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O "Capitolium" de Brescia |
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Rovato/Cocagglio |
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Santuário Nossa Senhora de Caravaggio |
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Chegando a Milão |
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Aluguel de bicicletas, comum nas cidades européias (Milão) |
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Comemoração da chegada em Milão |
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Duomo de Milão |
(P.S.): Continuarei atualizando o blog com algumas fotos,
filmes e outras informações.